quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O PECADO DA COBIÇA

Por Gilson Barbosa

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe cunhou a magistral frase onde afirma que “a conduta é um espelho no qual todos exibem a sua imagem”. Nada mais que verdadeiro. Percebe-se como determinada pessoa é, ou seja, sua personalidade, reparando atentamente nos seus atos, procedimentos ou conduta de vida – o modus vivendi. Existem pessoas que escondem muito bem seu lado sombrio (pecaminoso), mas logo os efeitos das suas infames realizações vêm à tona e a máscara cai do seu rosto. Tem sido assim desde sempre. Nesta breve reflexão trato do pecado da cobiça.

A maioria dos estudiosos ensina que a cobiça é o desejo veemente de ter o que outra pessoa tem. Mas, analisando bem não é totalmente errado desejar o que outra pessoa tem. Se meu vizinho tem um carro muito bonito e isso cria em mim a vontade de ter o mesmo modelo, marca ou cor, não é nisso que reside o problema. Alguém dirá que isso é inveja. Eu respondo que isso depende da intenção da pessoa que deseja o objeto (o que em muitos casos é difícil avaliar) e do ponto de vista de quem acusa. Os técnicos no assunto dizem que desejar o que o outro tem é cobiça, não inveja. O invejoso tem sentimentos negativos pela posse do outro e deseja que ele não tenha o objeto ou que de alguma forma perca este objeto. Já o cobiçoso vai além do desejo de possuir os bens da outra pessoa, no fundo ele quer ter ou levar a vida que a outra tem. 

Na verdade o cobiçoso deseja ser ou ter o que o outro tem sem fazer esforço. Ele aproveita o momento, a situação, para então praticar o golpe. Certo pensador disse muito bem que “os cobiçosos desejam fazer fortuna sem precisarem trabalhar, desejam o cônjuge do próximo, querem ter multidões a seus pés, procuram tirar proveito de certas situações, procuram tirar férias faustosas e além de suas posses em outros países, endividam-se além de suas posses e ganhos, enfim, procuram adquirir fama e reconhecimento para satisfazer seus orgulhos e vaidades”.

No Decálogo há a seguinte exortação: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo; e não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Dt 5:21). O cobiçoso olha e vê a vida próspera que o outro vive e no fundo quer ser ele. Só que para isso ele viola as regras éticas, morais e espirituais. O cobiçoso se impacienta e se irrita pelo fato de não ter o mesmo sucesso na vida que o outro tem. Daí ele querer o que é da outra pessoa. O cobiçoso não somente deseja à casa do seu próximo, a mulher, o campo, o servo ou serva, o boi ou jumento, mas ele quer essas coisas porque elas lhe satisfazem nos mínimos detalhes e não quer ter o justo esforço (ou trabalho) de ter algo similar.

De certa forma o rei Davi foi vencido pelo pecado da cobiça. Quantas mulheres os reis deste período poderiam ter, mas Davi queria exatamente Bate-Seba, que era mulher de Urias, seu fiel soldado. O rei sabia que Bate-Seba era casada: “E mandou Davi indagar quem era aquela mulher; e disseram: Porventura não é esta Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu?” (2 Samuel 11:3). Como todos os cobiçosos Davi não avaliou as consequências deste pecado: “Então enviou Davi mensageiros, e mandou trazê-la; e ela veio, e ele se deitou com ela (pois já estava purificada da sua imundícia); então voltou ela para sua casa” (2 Samuel 11:4). Para levar sua cobiça adiante o cobiçoso torna-se até mesmo violento, ríspido, ignorante, cruel e insensato. “E sucedeu que pela manhã Davi escreveu uma carta a Joabe; e mandou-lha por mão de Urias. Escreveu na carta, dizendo: Ponde a Urias na frente da maior força da peleja; e retirai-vos de detrás dele, para que seja ferido e morra” (2 Samuel 11:14-15).

No Antigo Testamento o termo cobiça possui três sentidos. O primeiro é hamadh que é o desejo pela possessão alheia: “Ai daqueles que nas suas camas intentam a iniqüidade, e maquinam o mal; à luz da alva o praticam, porque está no poder da sua mão! E cobiçam campos, e cobiçam casas, e arrebatam-nas; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (Miquéias 2:1-2). O segundo é betsa que é o desejo por lucro que seja desonesto: “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jeremias 6:13). E o terceiro é awwa (ava), ou desejo egoísta: ”O cobiçoso cobiça o dia todo, mas o justo dá, e nada retém” (Provérbios 21:26). Os termos derivados da cobiça são: desejar, ansiar, cobiçar, esperar ansiosamente, sentir vontade, suspirar, anelar, querer, preferir.

No Novo Testamento, entre outros, encontramos os substantivos epithumia (ἐπιθυμία) e pleoneksía (πλεονεξία). O primeiro expressa qualquer desejo intenso e o termo bíblico correspondente é concupiscência: “Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” (Romanos 7:7-8). O segundo expressa literalmente o desejo de ter mais, ou seja, a asserção violenta dos próprios direitos: “Porque, como bem sabeis, nunca usamos de palavras lisonjeiras, nem houve um pretexto de avareza; Deus é testemunha” (1 Tessalonicenses 2:5). O apóstolo Paulo não tinha nenhum interesse em ganhos financeiros, tirar proveito da situação, no sentido de fazer agravo, defraudar ou tirar vantagem.  

Não me atrevo a dizer quem dos servos de Deus são cobiçosos, mas vale atentar para três recomendações oferecidas por J. Ligon Duncan III:

Primeira, devemos ter consciência da realidade do pecado em nós. Ele afirma que nós fomos libertos do reino do pecado, mas não fomos livres ainda da presença do pecado. Uma luta constante sucede dentro de nós, das luxúrias da carne (inicia a guerra) com o espírito. Há uma guerra espiritual acontecendo na parte mais interna de nosso ser. Necessitamos, portanto, olhar o pecado (pecado pessoal e particular) nos olhos. Não importa que cargo ou função ocupe na igreja visível de Cristo (músico, cantor, pregador, pastor), nunca perca de vista que não estás acima do pecado. Cuidado!

Segunda, precisamos detectar o que necessita ser tratado em nós – e nessa reflexão trata-se da cobiça. Temos de analisar se estamos sendo, de alguma maneira, cobiçosos ou não. Paulo escrevendo aos Colossenses (3:5) exortou: “Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra” e a seguir lista vários pecados que precisam “morrer” em nós. O grande problema é que nós temos dificuldade de autoavaliação. Uns pensam que estão em posição de maior santidade que outros, negligenciam o cuidado, mas cometem o pecado às escondidas, no íntimo.

Terceira, é necessário abandonar o pecado. Ainda em Colossenses 3:8 o apóstolo Paulo orienta os irmãos a abandonarem de vez os pecados: “Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca”. O pecado da cobiça não deve ser tratado como se fosse um bichinho de estimação, é preciso se livrar dele urgente.

Que o Senhor nos ajude a refletir sobre isso. Se temos sido cobiçosos devemos pedir perdão ao Senhor e também ao próximo que temos prejudicado com a nossa cobiça.

Em Cristo,

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